Por trás das câmeras do Octógono


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Congelar o momento da luta em uma cena, o instante exato de um grande golpe numa foto, isto é, apenas o retrato da emoção de uma luta, o foco está apenas no momento do golpe, a expressão no rosto do atleta ao levar um soco, um chute ou num momento do êxtase da vitória; suor e sangue são alguns dos ingredientes que fazem essa boa fotografia, seja ela clicada no canto do ringue de Boxe ou no Octógono do Ultimate. Esse privilégio de testemunhar lutas mais próximo do que qualquer pessoa parece glamoroso, fotografar atletas em seus momentos menos resguardados e momentos de glória, receber um respingo de sangue e manter o foco em cada segundo da luta são um dos ofícios desses profissionais. Apenas mais um dia de trabalho, essa é a tarefa desses fotógrafos.

Quando se trata de foto-jornalismo no mundo do MMA o primeiro nome que vem a mente é do japonês Susumu Nagao, um pioneiro que cobriu os primeiros eventos do UFC, suas fotografias contam a história do MMA. Em 2012, juntamente com o jornalista Marcelo Alonso, decidiram juntar seus respectivos acervos criando o mais completo banco de imagens sobre os primórdios do MMA, trabalho este que resultou no livro “Do Vale-Tudo ao MMA”. Nagao é conhecido até hoje pelo próximo relacionamento com a família Gracie, em especial Rickson Gracie. Seu sucessor foi o Texano, Josh Hedges. A partir do UFC 42, Josh se tornaria o fotografo oficial do evento: “Definitivamente eu era um grande fã e amigo por anos de Susumo, ele me influenciou” contou Josh à UFC Magazine, revista oficial do UFC.

Outro grande nome do foto-jornalismo do MMA é a norte americana Esther Lin – que recentemente teve sua credencial recolhida juntamente com o repórter Ariel Helwani, decisão essa revogada poucos dias depois. Quando se trata da elite dos fotógrafos, os melhores dos melhores, seu nome está entre os mais lembrados, com um olhar apurado e um sexto sentido para capturar momentos inesquecíveis Lin prova o porquê seu trabalho é tão reconhecido. Mas, em seu trabalho há momentos não tão glamurosos: “No MMA, sangue nas lentes/em mim é raro por que ficamos alguns metros atrás do octógono, No boxe, a todo o momento caem sangue e suor em mim por que ficamos nas cordas. Em Abu Dhabi, o sangue de Brad Blackburn espirrou em todo meu rosto e isso não foi muito agradável. Mas o pior foi ano passado quando o cut-man jogou a toalha ensanguentada na minha direção.” contou Esther Lin ao fórum Reddit. “Provavelmente a foto que mais gosto é a de Gina Carano vs. Cyborg, porque somente eu consegui esse ângulo (foi quase um metro de mim) e é uma daquelas poucas que se tornam únicas. Também tenho uma foto, eu e todos na minha fileira, de Vitor (Belford) levando um chute no rosto de Anderson Silva, bem… todos nós conseguimos o mesmo ângulo. Mas aquela da Carano é a minha queridinha.“ A imagem mencionada por Lin, representa o inicio do auge da categoria feminina no MMA, a figura de Gina Carano foi importantíssima para que as mulheres conseguissem entrar de vez na maior franquia de lutas, o UFC. Mas a imagem – espetacular, de Anderson Silva tornou-se um símbolo de sua carreira e está entre as preferidas de todos os fãs de luta, a técnica, plasticidade movimento e a importância do golpe em questão a tornam única.

Provavelmente a foto que mais gosto é a de Gina Carano vs. Cyborg, porque somente eu consegui esse ângulo (foi quase um metro de mim) e é uma daquelas poucas que se tornam únicas. Esther Lin.

Tracy Lee, também uma das mais conhecidas por toda comunidade de MMA, não apenas por retratar os lutadores dentro do cage, mas também fora dele; em ‘after parties’ (as festas pós eventos), durante seus treinamentos e ‘camps’. Outros bons fotógrafos que não poderiam deixar de ser mencionados aqui são Ed Mulholland (HBO Boxing, ESPN, USA Today Sports), James Law (diretor de fotografia da Revista Oficial do UFC) e o brasileiro Oswaldo Neto, que já cobriu o UFC no Brasil e Estados Unidos. Infelizmente reconhecimento vem apenas dos fãs e não de agências ou revistas, muitas vezes esses profissionais são mal remunerados; “O valor recebido é o mais baixo que a maioria dos esportes fotografados por que existem muitas pessoas o fazendo de graça e outras por mais barato que você. Pelo menos eu recebo um reembolso por meus gastos com as viagens, não é nada mal. Já a foto mais cara? Eu não ganho muito por elas, talvez a mais cara foi uma de GSP que eu vendi para VICE (VICE Magazine) e ganhei $300 dólares. Mas é uma ou outra por ano.”. Em meados de 2010, o UFC fechou um acordo com a agência mundialmente reconhecida Getty Images, autorizando a empresa a licenciar, distribuir e gerir o banco de imagens do Ultimate que contém mais de 10.000 fotos, desde eventos a bastidores e compromissos oficiais.

Com tantos modelos de câmeras no mercado e a tecnologia evoluindo constantemente, é preciso escolher o que melhor para o fotógrafo e de acordo com o que vai capturar, num cenário de MMA, com luzes fortes reluzindo o octógono é possível trabalhar diversos ângulos, com sombras, brilhos etc. Josh Hedges, usa, além de sua visão treinada uma Canon EOS-1D Mark IV, Canon EOS-5D Mark II além das lentes Canon EF-24-70mm, 16-35min, 70-200 e alguns extras como maleta, tripé, baterias etc. “Para MMA, geralmente eu fotografo com uma Canon 1DX e a Canon 5DmkIII. E uso as lentes 70-200 F2.8 e 24-70 F2.8 para a maioria das lutas, embora eu carregue uma olho-de-peixe e a Sigma 85 milímetros para retratos” conta Esther Lin.

Para eles a fotografia é mais que um hobby levado a sério, encontrar o enquadramento certo, com o avanço da tecnologia precisam pensar além das páginas da revista ou das paredes da galeria e explorar os novos meios, as novas tecnologias. Uma coisa, porém, permanece a mesma desde o invento da fotografia, jamais vai mudar: a capacidade de uma foto contar uma história.