RESULTADOS| KAPE def. HORIGUCHI Nocaute técnico (R3)|OLIVEIRA def. CHIKADZE Nocaute técnico (R2)|STIRLING def. CUTELABA Nocaute técnico (R2)|RAPOSO def. NASCIMENTO Decisão dividida|RODRIGUEZ def. AMIL Finalização (guilhotina, R1)|BORJAS def. LIMA Decisão unânime|MAGOMEDOV def. BAGHDASARYAN Finalização (twister, R1)|MESQUITA def. MULLINS Finalização (chave de braço, R1)|BOLAÑOS def. JR. Decisão unânime|SANTOS def. ROSA Decisão unânime|CHOKELI def. SHABAZYAN Nocaute (R1)|COLLINS def. TANZILOVI Decisão unânime| RESULTADOS| KAPE def. HORIGUCHI Nocaute técnico (R3)|OLIVEIRA def. CHIKADZE Nocaute técnico (R2)|STIRLING def. CUTELABA Nocaute técnico (R2)|RAPOSO def. NASCIMENTO Decisão dividida|RODRIGUEZ def. AMIL Finalização (guilhotina, R1)|BORJAS def. LIMA Decisão unânime|MAGOMEDOV def. BAGHDASARYAN Finalização (twister, R1)|MESQUITA def. MULLINS Finalização (chave de braço, R1)|BOLAÑOS def. JR. Decisão unânime|SANTOS def. ROSA Decisão unânime|CHOKELI def. SHABAZYAN Nocaute (R1)|COLLINS def. TANZILOVI Decisão unânime|
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ARTIGO · 21 jun 2026

A era Pride: quando o Brasil reinava no Japão

Tinha alguma coisa quase litúrgica em ligar a TV de madrugada e ver a Saitama Super Arena lotada, os holofotes cortando a fumaça, os tambores ecoando e um lutador caminhando para o ringue como se fosse para a guerra. Por quase uma década, o melhor MMA do planeta não acontecia em Las Vegas. Acontecia no Japão, sob as luzes do Pride Fighting Championships. E no centro daquele espetáculo, com uma frequência que hoje parece inacreditável, estavam os brasileiros.

O Pride nasceu em 1997, no Tokyo Dome, com Rickson Gracie diante de Nobuhiko Takada, num casamento entre a mística do vale-tudo e o apetite japonês por superlutas. Ao longo dos anos 2000, virou o palco mais cobiçado do esporte, num tempo em que o UFC ainda engatinhava e era tratado como marginal nos Estados Unidos. O ringue no lugar da grade, as categorias abertas, as joelhadas e pisões no oponente caído, a ausência de intervalos comerciais no meio da luta. Tudo ali era mais teatral, mais brutal e, convenhamos, mais romântico.

Nesse cenário, Curitiba mandou ao Japão uma das gerações mais assustadoras que o MMA já produziu. A Chute Boxe transformou Wanderlei Silva no rosto do Pride. O Cachorro Louco entrava ao som de Sandstorm, encarava o adversário como quem olha para uma presa e reinou na categoria até 93 quilos por anos, vencendo o Grand Prix de 2003 e empilhando finalizações violentas que o público japonês idolatrava. Wanderlei não era só campeão. Era atração principal, símbolo de uma escola brasileira que pregava o avanço para cima do rival sem recuo.

Se Wanderlei era a fúria, Rodrigo Minotauro era o coração. Primeiro campeão dos pesados do Pride, o baiano construiu sua lenda sobrevivendo ao impossível, como nas batalhas contra o gigante Bob Sapp, em que apanhou muito antes de finalizar, e na rivalidade eterna com Fedor Emelianenko, que ele nunca venceu mas honrou como poucos. Era o jiu-jitsu sob pressão extrema, a calma de quem sabia que sempre teria um último triângulo ou uma última chave de braço guardada para virar o jogo.

E havia Mauricio Shogun, talvez o ápice técnico daquela leva. Em 2005, com pouco mais de vinte anos, atravessou o Grand Prix dos médios atropelando nomes pesados num único ano, com pisões e socos no chão que pareciam vídeo de game. Foi uma das campanhas individuais mais impressionantes da história, e plantou a semente do que ele se tornaria depois, já campeão do UFC.

Seria desonesto, porém, pintar a era Pride como um conto de fadas verde-amarelo do começo ao fim. O mesmo palco que coroou os brasileiros também abrigou o capítulo mais doloroso para a nossa tradição, quando Kazushi Sakuraba ganhou o apelido de Caçador de Gracies ao derrotar Royler, Renzo, Ryan e protagonizar com Royce um duelo de quase noventa minutos. Para quem cresceu ouvindo que a família era imbatível, ver o japonês desmontar o mito foi um soco no estômago. A redenção veio justamente pela mão da Chute Boxe, quando Wanderlei transformou Sakuraba em alvo e devolveu ao Brasil a sensação de revanche.

Era essa mistura que fazia o Pride ser o Pride. As atrações de circo, como o próprio Bob Sapp, conviviam com os melhores lutadores do mundo. O imprevisível morava em cada card, e o público entregava em silêncio reverente o respeito que arenas barulhentas raramente oferecem. Tudo somava para criar a sensação de que aquilo era grande demais para durar.

E não durou. Em 2006, denúncias de ligação da organização com a Yakuza levaram a Fuji TV a romper o contrato de transmissão, e sem televisão o modelo ruiu. Em 2007, a Zuffa, dona do UFC, comprou o Pride e encerrou a história logo depois, no Pride 34. A diáspora que se seguiu, no entanto, conta por que aquilo tudo importou. Shogun, Minotauro, Anderson Silva, que havia passado pelo Japão antes de virar lenda, e tantos outros levaram o DNA do Pride para o octógono americano e ajudaram a moldar a era de ouro do UFC.

Fico com a leitura mais justa que consigo. A era Pride foi o momento em que uma geração brasileira saiu de casa, cruzou o mundo e conquistou o território mais exigente do esporte, com um estilo de coragem que virou marca registrada. Houve derrota amarga, houve excesso e houve um final melancólico, como em toda dinastia. Mas quando se fala que o MMA já teve uma época mágica, é daquele ringue no Japão que estamos falando. E o Brasil não era coadjuvante. Era dono do palco.

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