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KAPE def. HORIGUCHI Nocaute técnico (R3) OLIVEIRA def. CHIKADZE Nocaute técnico (R2) STIRLING def. CUTELABA Nocaute técnico (R2) RAPOSO def. NASCIMENTO Decisão dividida RODRIGUEZ def. AMIL Finalização (guilhotina, R1) BORJAS def. LIMA Decisão unânime MAGOMEDOV def. BAGHDASARYAN Finalização (twister, R1) MESQUITA def. MULLINS Finalização (chave de braço, R1) BOLAÑOS def. JR. Decisão unânime SANTOS def. ROSA Decisão unânime CHOKELI def. SHABAZYAN Nocaute (R1) COLLINS def. TANZILOVI Decisão unânime KAPE def. HORIGUCHI Nocaute técnico (R3) OLIVEIRA def. CHIKADZE Nocaute técnico (R2) STIRLING def. CUTELABA Nocaute técnico (R2) RAPOSO def. NASCIMENTO Decisão dividida RODRIGUEZ def. AMIL Finalização (guilhotina, R1) BORJAS def. LIMA Decisão unânime MAGOMEDOV def. BAGHDASARYAN Finalização (twister, R1) MESQUITA def. MULLINS Finalização (chave de braço, R1) BOLAÑOS def. JR. Decisão unânime SANTOS def. ROSA Decisão unânime CHOKELI def. SHABAZYAN Nocaute (R1) COLLINS def. TANZILOVI Decisão unânime
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COLUNA

A Escola Soviética que Mudou o UFC

silvio.doria8@gmail.com
Coluna · 27 jun 2026 · 16:11
A Escola Soviética que Mudou o UFC

Durante boa parte da história do UFC, o MMA foi vendido como um encontro entre escolas muito diferentes de luta. De um lado, o jiu-jitsu brasileiro e sua tradição de finalizações. Do outro, o wrestling universitário americano, que formou alguns dos atletas mais explosivos e fisicamente dominantes do esporte. Havia ainda o muay thai, o boxe, o karatê, o kickboxing europeu e uma infinidade de estilos que, aos poucos, foram sendo filtrados pela realidade do octógono.

Mas, nos últimos anos, uma escola passou a influenciar o esporte de maneira especialmente clara: a tradição de luta vinda da Rússia e das antigas repúblicas soviéticas.

O fenômeno ganhou rosto com Khabib Nurmagomedov, virou hegemonia com Islam Makhachev e se espalhou por diversas categorias com nomes como Petr Yan, Magomed Ankalaev, Arman Tsarukyan, Shavkat Rakhmonov e Umar Nurmagomedov. Eles não lutam todos da mesma forma, não vêm exatamente das mesmas regiões e nem compartilham o mesmo estilo de trocação. Ainda assim, carregam uma base comum: wrestling, sambo, judô, disciplina competitiva e uma cultura de treinamento que trata o combate corpo a corpo como algo natural desde cedo.

A Rússia não inventou o wrestling. Tampouco inventou o MMA. O que ela fez foi criar um sistema em que diferentes modalidades de luta passaram a se complementar de forma quase automática. O resultado foi uma geração de atletas que não enxerga a trocação, o clinch e o chão como partes separadas da luta. Para eles, uma combinação em pé pode terminar em uma queda. Uma queda pode virar controle contra a grade. O controle pode abrir espaço para golpes curtos, montada, costas ou finalização.

No MMA moderno, essa continuidade virou uma das armas mais difíceis de neutralizar.

A origem está antes do UFC

Para entender por que essa escola se tornou tão influente, é preciso olhar para trás. A União Soviética construiu, ao longo do século XX, uma das estruturas esportivas mais fortes do mundo. Wrestling olímpico, judô, boxe e levantamento de peso eram tratados como esportes estratégicos, com centros de treinamento, clubes locais, torneios regionais e uma cultura de competição muito forte.

O sambo nasceu nesse contexto. A modalidade combinava elementos do judô japonês, das lutas tradicionais de várias regiões do antigo território soviético e do wrestling. O nome vem de uma expressão russa que significa “autodefesa sem armas”. Ao longo do tempo, o sambo se dividiu em diferentes vertentes, incluindo o combat sambo, que permite golpes e se aproxima bastante da lógica do MMA.

Isso ajudou a formar atletas mais completos. Um jovem podia competir em wrestling, depois treinar judô, fazer sambo e, mais tarde, migrar para o MMA sem sentir que estava começando do zero. Ele já entendia quedas, desequilíbrios, controle de tronco, pressão de quadril, defesa de projeções e como permanecer calmo em posições físicas e desconfortáveis.

Essa é uma das diferenças mais importantes em relação a muitos países onde o MMA cresceu de forma mais fragmentada. Em várias academias do Ocidente, o lutador começa como striker e depois precisa aprender grappling. Ou começa no jiu-jitsu e precisa correr atrás do wrestling. Na tradição soviética, essas habilidades frequentemente se desenvolvem em paralelo.

O Daguestão virou o símbolo dessa escola

Nenhuma região se tornou tão associada a esse estilo quanto o Daguestão. Localizado no Cáucaso Norte, o território é conhecido por sua diversidade étnica, montanhas, comunidades pequenas e uma cultura extremamente ligada aos esportes de combate.

Em muitas cidades e vilarejos da região, wrestling não é apenas uma atividade extracurricular. É parte da rotina. Crianças crescem vendo irmãos, pais, vizinhos e atletas locais treinando e competindo. Há uma normalização da dureza física, da disciplina e do contato corporal que, mais tarde, aparece de forma muito clara no octógono.

Foi desse ambiente que saiu Khabib Nurmagomedov.

Treinado pelo pai, Abdulmanap Nurmagomedov, Khabib construiu sua formação em wrestling, judô e sambo antes de entrar no MMA profissional. A imagem dos treinos em uma academia simples, cercado por lutadores de diferentes idades e tamanhos, ajudou a construir a mística em torno de sua carreira. Mas o que realmente importava não era a imagem. Era o método.

Khabib chegava ao octógono com algo raro: não apenas boas quedas, mas uma compreensão quase sufocante de como continuar atacando depois que a primeira tentativa falhava.

Ele não dependia de uma entrada perfeita de wrestling. Muitas vezes começava com um golpe, prendia o corpo, empurrava o adversário contra a grade e passava minutos inteiros alternando entre quedas, arrastões, controles de perna e ataques de costas. O rival defendia uma queda e encontrava outra. Tentava se levantar e via Khabib mudar o ângulo. Conseguia ficar de pé, mas já estava preso novamente contra a grade.

A sensação era a de estar lutando contra alguém que sempre tinha uma segunda e uma terceira resposta pronta.

A queda não era o objetivo. Era o início do castigo.

O wrestling americano sempre teve enorme peso no UFC. Campeões como Randy Couture, Georges St-Pierre, Daniel Cormier, Kamaru Usman e Jon Jones mostraram, cada um à sua maneira, como uma boa base de wrestling pode decidir lutas.

Mas o jogo que Khabib popularizou tinha uma característica própria: ele não tratava a queda como uma pontuação ou como uma passagem de fase. A queda era apenas o início da pressão.

O adversário não era levado ao chão para que Khabib procurasse imediatamente uma finalização. Era levado ao chão para ser controlado, cansado, frustrado e empurrado a cometer erros. Isso fazia com que a luta parecesse menos técnica para quem assistia de fora, mas, na verdade, fosse extremamente sofisticada.

O controle de punhos, o uso da grade, a forma de travar quadris, a pressão sobre as pernas e a capacidade de montar ataques enquanto o rival tentava levantar exigem uma leitura muito refinada de peso, equilíbrio e timing.

A grande marca de Khabib era transformar qualquer pequena vitória defensiva do adversário em uma derrota maior alguns segundos depois.

Se o rival defendia a perna, ele mudava para o corpo. Se defendia o corpo, ele puxava para a grade. Se tentava se levantar, ele controlava os tornozelos. Se virava de costas, ele atacava a posição. Se abria espaço, vinha o ground and pound.

Era um ciclo. E, quando esse ciclo começava a funcionar, a luta deixava de ser uma disputa de golpes e passava a ser uma disputa de sobrevivência.

Islam Makhachev levou o modelo para outro nível

Khabib aposentou-se invicto e saiu do UFC como um dos campeões mais dominantes da história. Mas a força da escola do Daguestão ficou ainda mais evidente quando Islam Makhachev assumiu o protagonismo.

Makhachev tem a mesma base de wrestling e sambo. Foi treinado no mesmo ambiente, pertence ao mesmo círculo técnico e conhece profundamente o jogo de pressão que tornou Khabib famoso. A diferença é que Islam adicionou uma camada mais moderna e mais completa à fórmula.

Ele é mais paciente em pé. Trabalha melhor a distância. Usa chutes com mais frequência. Tem uma postura mais equilibrada e uma leitura maior de contra-ataques. Não precisa transformar todas as lutas em uma sequência caótica de quedas para dominar um adversário.

Isso não torna seu estilo menos perigoso. Pelo contrário. Torna-o mais difícil de prever.

Com Khabib, o rival sabia que a tempestade viria. Com Islam, muitas vezes o problema é não saber de onde ela virá. Pode ser uma queda de corpo, uma entrada em uma perna, uma sequência de chutes, um contra-golpe ou uma finalização após uma troca aparentemente equilibrada.

Essa evolução é importante porque mostra que a escola soviética não ficou presa a um único modelo. Ela não é simplesmente “wrestling forte”. É uma base que pode ser adaptada a diferentes biotipos, categorias e estilos.

Uma geração inteira passou a carregar essa identidade

O impacto não se limita aos atletas do Daguestão. A antiga esfera soviética produz lutadores com perfis muito diferentes, mas quase todos parecem chegar ao MMA com um nível acima da média no combate agarrado.

Petr Yan, por exemplo, é conhecido principalmente por sua trocação compacta, agressiva e extremamente bem construída. Ele não luta como Khabib. Não busca a mesma pressão de wrestling durante vinte e cinco minutos. Ainda assim, carrega uma base competitiva dura, uma capacidade de trabalhar no clinch e uma defesa de quedas que se encaixam perfeitamente na tradição da região.

Arman Tsarukyan representa outra versão. Mais jovem, mais explosivo e mais atlético, ele combina wrestling de alto nível com movimentação rápida e uma trocação em evolução. Sua luta contra Islam Makhachev, ainda no início da carreira no UFC, foi um dos primeiros sinais de que a próxima geração já estava pronta para ocupar espaço.

Shavkat Rakhmonov, do Cazaquistão, tem um estilo completamente diferente. Alto, comprido, paciente e perigoso tanto em pé quanto no chão, ele não reproduz o jogo de Khabib. Mas compartilha a mesma característica central: parece confortável em qualquer tipo de luta. Pode trocar, clinchar, derrubar, atacar o pescoço, usar joelhadas e manter o controle quando a luta fica confusa.

É isso que torna essa escola tão difícil de combater. Não existe um único padrão a ser estudado. Existe uma base de formação que permite diferentes interpretações.

O impacto chegou às academias do mundo inteiro

A influência russa e soviética no MMA não aparece apenas nos cinturões. Ela aparece nos treinos.

Hoje, praticamente toda academia séria de MMA entende que não basta defender uma queda no centro do octógono. É preciso saber sair da grade. É preciso defender o body lock. É preciso se levantar sem expor as costas. É preciso lidar com o adversário prendendo as mãos, travando as pernas e usando o peso do corpo para impedir qualquer movimento.

Esse tipo de detalhe ganhou importância justamente porque lutadores como Khabib e Islam provaram que o grappling moderno não depende apenas de explosão. Depende de repetição, posição, pressão e desgaste.

No Brasil, isso teve impacto direto. O país continua sendo a principal referência do mundo em jiu-jitsu, mas o MMA passou a exigir mais wrestling adaptado à grade. Um faixa-preta perigoso por baixo pode continuar sendo uma ameaça, mas não pode ficar confortável aceitando posições ruins. Contra os melhores wrestlers do mundo, esperar uma abertura pode significar passar minutos sendo controlado e perdendo rounds.

Nos Estados Unidos, o efeito também foi grande. O wrestling universitário segue sendo uma das melhores bases para o MMA, mas muitos atletas perceberam que derrubar não basta. É preciso saber manter o adversário no chão sem se colocar em risco, controlar transições e atacar enquanto o rival tenta levantar.

A escola soviética ajudou a mostrar que a diferença entre um wrestler e um lutador de MMA completo está no que acontece depois da queda.

O mundo está tentando copiar, mas não é fácil reproduzir

É possível aprender técnicas. É possível contratar treinadores de wrestling, sambo ou judô. É possível estudar vídeos de Khabib e Islam. Mas é muito mais difícil reproduzir a cultura que formou esses atletas.

O diferencial não está apenas no golpe ou na queda. Está no ambiente. No volume de treino desde cedo. Na quantidade de competições amadoras. Na convivência com adversários mais velhos e mais fortes. Na disciplina coletiva. Na ideia de que lutar não é uma atividade ocasional, mas uma parte central da formação de muitos jovens.

Esse tipo de ambiente produz atletas que não se assustam quando a luta fica física. Eles parecem mais confortáveis quando o combate perde a estética e vira uma disputa de força, posição e resistência.

Talvez seja por isso que tantos adversários de lutadores russos parecem frustrados antes mesmo de serem derrotados. Eles não estão apenas sendo derrubados. Estão sendo empurrados para um tipo de luta que não querem travar.

E, no MMA, obrigar o rival a lutar a sua luta é metade da vitória.

O legado já está garantido

Khabib mudou o jeito como o público enxergava o grappling. Islam confirmou que aquela escola tinha continuidade. A nova geração mostra que o movimento está longe de acabar.

O UFC continua sendo um esporte global, cheio de estilos e tradições diferentes. O Brasil seguirá produzindo grandes especialistas em jiu-jitsu. Os Estados Unidos continuarão revelando wrestlers de elite. A Tailândia seguirá sendo referência em trocação. Mas a escola soviética conquistou um espaço próprio no mapa das lutas.

Ela trouxe de volta a importância da pressão. Reforçou o valor do controle. Mostrou que uma queda pode ser mais do que uma queda. E ensinou uma nova geração de atletas que o caminho para vencer uma luta muitas vezes começa quando o adversário percebe que não consegue mais sair da grade.

Por: Silvio Dória

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