“Quero conhecer o Brasil enquanto estou vivo”, diz Takanori Gomi em entrevista ao PosLuta
Campeão do GP dos leves do PRIDE em 2005, o japonês fala ao PosLuta sobre a noite em que lutou duas vezes, o respeito pelos brasileiros, a derrota e a revanche contra Conan Aurélio, a adaptação ao octógono e o recado para os fãs do Brasil.
Poucos nomes traduzem tão bem o que foi a era do PRIDE quanto Takanori Gomi. Em um Japão acostumado a vender lutas pelos gigantes, foi ele quem provou que um peso leve podia ser atração principal. O “Fireball Kid” saiu do wrestling escolar para o Shooto, chegou ao PRIDE em 2003 e, dois anos depois, levantou o troféu do Grand Prix dos leves, o torneio que definiu a hierarquia da categoria naquela geração e ajudou a abrir caminho para tudo o que veio depois nos 70 kg.
Aos 47 anos, hoje dedicado à formação de novos atletas na Rascal Gym, em Tóquio, Gomi respondeu com exclusividade a um questionário enviado pelo PosLuta. Falou sobre as lutas que o marcaram, os adversários brasileiros, a virada que precisou fazer no próprio treino e o desejo, ainda não realizado, de pisar no Brasil.
As lutas que ficaram
Pedido a escolher o combate mais importante de uma carreira que atravessou três décadas, ele se recusa a apontar apenas um. “Acho que todas foram lutas importantes, que eu não podia perder. Especialmente a luta contra o BJ Penn no Havaí, e as lutas contra o Jens Pulver e o Hayato Sakurai no PRIDE”, afirmou.
A escolha diz muito sobre como ele enxerga a própria trajetória. O duelo com BJ Penn, no Havaí, foi uma derrota, e mesmo assim entra na lista ao lado de duas das maiores vitórias da carreira. Contra Jens Pulver, ex-campeão do UFC, Gomi venceu na virada do ano de 2004. Contra Sakurai, fechou o Grand Prix. Vitórias e derrotas, no relato dele, ocupam o mesmo patamar de importância.
O peso da categoria
Quando o PRIDE criou o Bushido e abriu espaço para os pesos mais baixos, a marca ainda era associada aos pesados. Cabia aos leves justificar o próprio lugar no card, e Gomi enxerga aquele período como uma prova de conceito bem-sucedida.
“Em um evento de luta centrado nos pesados, acho que conseguimos passar a mensagem de que, se você encantar o público com velocidade e técnica, ele também se diverte”, disse.
A resposta é modesta para o tamanho do que aconteceu. O Bushido virou a vitrine de uma geração inteira, e o ritmo imposto pelos leves passou a ser argumento de venda, não mais um complemento aos duelos de gigantes.
A noite mais longa

O ponto alto foi o Grand Prix de 2005. Em uma única noite, no Bushido 9, Gomi passou por Tatsuya Kawajiri e por Luiz Azeredo para carimbar a vaga na decisão, disputada meses depois contra Hayato “Mach” Sakurai. A lembrança mais nítida, no entanto, não é a do troféu, e sim a do desgaste de subir duas vezes no mesmo dia.
“Era a primeira vez que eu fazia dois combates de MMA em um mesmo evento, então a segunda luta, contra o Azeredo, pareceu eterna. Lutei apenas com a vontade de chegar à final”, contou.
A final trouxe um adversário com peso simbólico. Sakurai era o veterano que Gomi admirava e com quem havia treinado, e vencê-lo rendeu do japonês uma leitura fria, quase técnica, do próprio triunfo.
“Ele é um sênior que já me treinou e que me deu conselhos antes de lutas. Acho que a mudança de categoria do Sakurai e o tempo de round acabaram trabalhando a meu favor”, avaliou.
Os brasileiros no caminho

A carreira de Gomi é atravessada por brasileiros. Ralph Gracie, Luiz Azeredo e Marcus “Conan” Aurélio estão entre os nomes que cruzaram o caminho do japonês, e a impressão que ficou desses anos é de respeito pela forma como os atletas do Brasil encaram a profissão.
“São pessoas dedicadas ao treino, que valorizam a equipe e a família. Tenho a impressão de que se unem como um time só para realizar o sonho no Japão ou nos Estados Unidos”, afirmou.
Conan Aurélio foi um caso à parte. O brasileiro derrotou Gomi no primeiro encontro, em 2006, e o japonês respondeu com uma vitória na revanche, no fim daquele mesmo ano. Entre uma luta e outra, houve uma mudança de rota no treinamento, e é aí que a resposta dele fica mais reveladora.
“Refiz o trabalho paciente de base no grappling e no wrestling, para não depender só de buscar o nocaute no golpe e conseguir vencer em qualquer situação”, explicou.
O nocauteador mais temido da categoria, portanto, resolveu o problema voltando ao chão e ao básico. A resposta ajuda a entender por que a revanche foi tão diferente do primeiro duelo.
Um estilo construído pelo palco
A imagem que ficou de Gomi é a do lutador que ia para cima desde o primeiro segundo, sempre atrás do nocaute, apesar de ter no wrestling a sua formação original. Perguntado se isso vinha do temperamento ou de uma decisão consciente para agradar o público japonês, ele credita ao ambiente.
“Acho que foi o tempo de round e os adversários que me deixaram ofensivo naquele palco que era o PRIDE”, respondeu.
O detalhe do tempo de round não é secundário. O primeiro assalto de dez minutos, marca registrada do PRIDE, mudava completamente a matemática de uma luta e premiava quem tinha coragem de arriscar cedo.
A mudança para o octógono
Com o fim do PRIDE, Gomi seguiu para o UFC, e a adaptação cobrou ajustes que iam além do formato da área de luta. Ele cita três frentes: a movimentação, uma arma que não existia nas regras japonesas e a balança.
“A movimentação dentro do octógono e lidar com as cotoveladas, que não existiam no Japão, viraram um desafio. O controle de peso, de 73 kg para 70 kg, também foi”, disse.
O que ele quer passar aos jovens
Hoje envolvido com a formação de novos atletas na Rascal Gym, Gomi resume em uma frase o que considera mais importante do que qualquer detalhe técnico, quando o assunto é preparar quem está começando agora.
“Para entrar em uma luta de MMA e vencer, a base é o treino fundamental de todas as modalidades, golpes, grappling, tudo”, afirmou.
É a mesma lição que ele aplicou em si mesmo antes da revanche com Conan Aurélio, agora repassada a quem chega.
O recado ao Brasil
O Brasil acompanha Gomi desde os tempos de PRIDE, quando as transmissões e depois a internet transformaram o Bushido em objeto de culto por aqui. Questionado sobre esses torcedores, ele foi direto.
“Quero muito conhecer o Brasil enquanto estou vivo. Se aparecer a oportunidade, quero mostrar aos fãs brasileiros como eu luto”, disse o japonês, que encerrou as respostas escrevendo “obrigado” em japonês, em uma despedida que dispensava tradução.
As respostas foram concedidas por escrito, em japonês, e traduzidas pelo PosLuta.
Fonte: PosLuta
