“Quero conhecer o Brasil enquanto estou vivo”, diz Takanori Gomi em entrevista ao PosLuta
Campeão do GP dos leves do PRIDE em 2005, o japonês fala ao PosLuta sobre a noite em que lutou duas vezes, o respeito pelos brasileiros, a derrota e a revanche contra Conan Aurélio, a adaptação ao octógono e o recado para os fãs do Brasil.
Poucos nomes traduzem tão bem o que foi a era do PRIDE quanto Takanori Gomi. Em um Japão acostumado a vender lutas pelos gigantes, foi ele quem provou que um peso leve podia ser atração principal. O “Fireball Kid” saiu do wrestling escolar para o Shooto, chegou ao PRIDE em 2003 e, dois anos depois, levantou o troféu do Grand Prix dos leves, o torneio que definiu a hierarquia da categoria naquela geração e ajudou a abrir caminho para tudo o que veio depois nos 70 kg.
Nascido em Samukawa, na província de Kanagawa, em setembro de 1978, ele estreou como profissional ainda em 1998, aos 20 anos, no circuito do Shooto. Foram cinco anos de rodagem no MMA japonês antes de qualquer holofote internacional, período em que colecionou vitórias sobre nomes como Rumina Sato, ídolo da casa que ele superou por decisão unânime em dezembro de 2001, e o brasileiro Leonardo Santos, batido em 2002. O cartel encerrado soma 35 vitórias, 15 derrotas e um combate anulado.
Aos 47 anos, hoje dedicado à formação de novos atletas na Rascal Gym, em Tóquio, Gomi respondeu com exclusividade a um questionário enviado pelo PosLuta. Falou sobre as lutas que o marcaram, os adversários brasileiros, a virada que precisou fazer no próprio treino e o desejo, ainda não realizado, de pisar no Brasil.
As lutas que ficaram
Pedido a escolher o combate mais importante de uma carreira que atravessou três décadas, ele se recusa a apontar apenas um. “Acho que todas foram lutas importantes, que eu não podia perder. Especialmente a luta contra o BJ Penn no Havaí, e as lutas contra o Jens Pulver e o Hayato Sakurai no PRIDE”, afirmou.
A escolha diz muito sobre como ele enxerga a própria trajetória. O duelo com BJ Penn aconteceu em outubro de 2003, no Rumble on the Rock 4, no Havaí, e terminou com o havaiano aplicando um mata-leão no terceiro assalto. Foi uma derrota, e mesmo assim entra na lista ao lado de duas das maiores vitórias da carreira.
Contra Jens Pulver, ex-campeão do UFC, Gomi venceu na virada do ano de 2004, no PRIDE Shockwave, com um nocaute aos 6min21 do primeiro round. Contra Sakurai, fechou o Grand Prix. Vitórias e derrotas, no relato dele, ocupam o mesmo patamar de importância.
O peso da categoria
Quando o PRIDE criou o Bushido e abriu espaço para os pesos mais baixos, a marca ainda era associada aos pesados. Cabia aos leves justificar o próprio lugar no card, e Gomi enxerga aquele período como uma prova de conceito bem-sucedida.
“Em um evento de luta centrado nos pesados, acho que conseguimos passar a mensagem de que, se você encantar o público com velocidade e técnica, ele também se diverte”, disse.
A resposta é modesta para o tamanho do que aconteceu. Ele entrou na série em fevereiro de 2004, contra Jadyson Costa, e emendou uma sequência de vitórias que o transformou no rosto da divisão. O Bushido virou a vitrine de uma geração inteira, e o ritmo imposto pelos leves passou a ser argumento de venda, não mais um complemento aos duelos de gigantes.
A noite mais longa

O ponto alto foi o Grand Prix de 2005. Em uma única noite, no Bushido 9, realizado em 25 de setembro daquele ano, Gomi passou por Tatsuya Kawajiri e por Luiz Azeredo para carimbar a vaga na decisão. Kawajiri caiu por mata-leão aos 7min42 do primeiro assalto. O brasileiro resistiu mais e só foi superado nos cartões, por decisão unânime, depois de dois rounds completos.
Não era a primeira vez que os dois se encontravam. Quatro meses antes, no Bushido 7, Gomi havia nocauteado Azeredo em 3min42. A repetição do confronto, agora com o japonês já desgastado pela luta anterior na mesma noite, ajuda a explicar por que a lembrança mais nítida não é a do troféu, e sim a do esforço para chegar inteiro ao fim.
“Era a primeira vez que eu fazia dois combates de MMA em um mesmo evento, então a segunda luta, contra o Azeredo, pareceu eterna. Lutei apenas com a vontade de chegar à final”, contou.
A decisão veio três meses depois, em 31 de dezembro de 2005, no PRIDE Shockwave. Sakurai era o veterano que Gomi admirava e com quem havia treinado, e caiu por nocaute aos 3min56 do primeiro round. Vencê-lo rendeu do japonês uma leitura fria, quase técnica, do próprio triunfo.
“Ele é um sênior que já me treinou e que me deu conselhos antes de lutas. Acho que a mudança de categoria do Sakurai e o tempo de round acabaram trabalhando a meu favor”, avaliou.
Os brasileiros no caminho

A carreira de Gomi é atravessada por brasileiros. Ralph Gracie, Luiz Azeredo e Marcus “Conan” Aurélio estão entre os nomes que cruzaram o caminho do japonês, e a impressão que ficou desses anos é de respeito pela forma como os atletas do Brasil encaram a profissão.
“São pessoas dedicadas ao treino, que valorizam a equipe e a família. Tenho a impressão de que se unem como um time só para realizar o sonho no Japão ou nos Estados Unidos”, afirmou.
A lista é longa. Além dos dois duelos com Azeredo, ele bateu Jadyson Costa, Fabio Mello e Jean Silva no Bushido, e ainda somou o triunfo mais citado quando o assunto é velocidade: contra Ralph Gracie, em maio de 2004, resolveu a luta com joelhadas em seis segundos, um dos desfechos mais rápidos da história do PRIDE.
Conan Aurélio foi um caso à parte. O brasileiro derrotou Gomi no primeiro encontro, em abril de 2006, por finalização técnica com um katagatame, e o japonês respondeu com uma vitória por decisão dividida na revanche, em novembro daquele mesmo ano. Entre uma luta e outra, houve uma mudança de rota no treinamento, e é aí que a resposta dele fica mais reveladora.
“Refiz o trabalho paciente de base no grappling e no wrestling, para não depender só de buscar o nocaute no golpe e conseguir vencer em qualquer situação”, explicou.
O nocauteador mais temido da categoria, portanto, resolveu o problema voltando ao chão e ao básico. A resposta ajuda a entender por que a revanche foi tão diferente do primeiro duelo.
Um estilo construído pelo palco
A imagem que ficou de Gomi é a do lutador que ia para cima desde o primeiro segundo, sempre atrás do nocaute, apesar de ter no wrestling a sua formação original. Dos 35 triunfos, 14 vieram por nocaute ou nocaute técnico. Perguntado se isso vinha do temperamento ou de uma decisão consciente para agradar o público japonês, ele credita ao ambiente.
“Acho que foi o tempo de round e os adversários que me deixaram ofensivo naquele palco que era o PRIDE”, respondeu.
O detalhe do tempo de round não é secundário. O primeiro assalto de dez minutos, marca registrada do PRIDE, mudava completamente a matemática de uma luta e premiava quem tinha coragem de arriscar cedo.
A mudança para o octógono

O caminho até o UFC não foi direto. Com o fim do PRIDE, em 2007, Gomi ainda passou pelo Sengoku, entre 2008 e 2009, antes de assinar com a organização americana. A estreia no octógono veio em 31 de março de 2010, com derrota por mata-leão para Kenny Florian.
A resposta apareceu poucos meses depois. Em agosto daquele ano, ele nocauteou Tyson Griffin em 1min04, no tipo de desfecho que havia construído sua fama no Japão. Em fevereiro de 2012, venceu Eiji Mitsuoka no UFC 144, em Saitama, quando a liga voltou a promover um evento em solo japonês. Ainda somaria triunfos sobre Mac Danzig e Isaac Vallie-Flagg antes de deixar a organização, após a derrota para Dong Hyun Ma, em setembro de 2017.
A adaptação, no entanto, cobrou ajustes que iam além do formato da área de luta. Ele cita três frentes: a movimentação, uma arma que não existia nas regras japonesas e a balança.
“A movimentação dentro do octógono e lidar com as cotoveladas, que não existiam no Japão, viraram um desafio. O controle de peso, de 73 kg para 70 kg, também foi”, disse.
O encerramento da carreira aconteceu de volta em casa. No Rizin, perdeu para Yusuke Yachi na virada de 2017 para 2018 e nocauteou Melvin Guillard em julho de 2018, na última luta profissional registrada.
O que ele quer passar aos jovens
Hoje envolvido com a formação de novos atletas na Rascal Gym, academia à qual está ligado desde os tempos de competição, Gomi resume em uma frase o que considera mais importante do que qualquer detalhe técnico, quando o assunto é preparar quem está começando agora.
“Para entrar em uma luta de MMA e vencer, a base é o treino fundamental de todas as modalidades, golpes, grappling, tudo”, afirmou.
É a mesma lição que ele aplicou em si mesmo antes da revanche com Conan Aurélio, agora repassada a quem chega.
O recado ao Brasil
O Brasil acompanha Gomi desde os tempos de PRIDE, quando as transmissões e depois a internet transformaram o Bushido em objeto de culto por aqui. A relação é antiga e de mão dupla: parte das lutas que sustentam sua reputação foi construída diante de brasileiros. Questionado sobre esses torcedores, ele foi direto.
“Quero muito conhecer o Brasil enquanto estou vivo. Se aparecer a oportunidade, quero mostrar aos fãs brasileiros como eu luto”, disse o japonês, que encerrou as respostas escrevendo “obrigado” em japonês, em uma despedida que dispensava tradução.
As respostas foram concedidas por escrito, em japonês, e traduzidas pelo PosLuta. Os dados de cartel, datas e resultados citados foram conferidos no Sherdog.
