O homem que apostou no proibido
Trump e Dana White no Salão Oval. Foto: Casa Branca.
No domingo passado, dois lutadores se enfrentaram no gramado da Casa Branca. Não é força de expressão. No South Lawn, o mesmo jardim onde presidentes recebem chefes de Estado e acendem a árvore de Natal, montou-se um octógono, e Ilia Topuria nocauteou a noite diante de um presidente que fazia 80 anos naquele dia. Quem assistiu de longe pode ter achado a cena bizarra, uma excentricidade de fim de mandato. Quem acompanha o UFC há tempo viu outra coisa: o último ato de uma história que começou há 25 anos, num cassino falido de Atlantic City, e que diz mais sobre como Donald Trump opera do que qualquer biografia.
A história é conhecida por quem é do meio, e merece ser contada de novo porque envelheceu bem. Virada do milênio. O UFC era um pária. John McCain o chamava de briga de galo humana, trinta e seis estados o haviam proibido, e Las Vegas, a capital mundial das lutas, não queria saber do esporte. Sem comissão atlética disposta a sancionar e sem arena disposta a receber, a promoção sobrevivia em ginásios de segunda linha. Era um negócio com cheiro de coisa morta.
Foi aí que o Taj Mahal abriu as portas. O cassino que Trump anunciava como a oitava maravilha do mundo recebeu o UFC quando receber o UFC era um risco reputacional, não uma oportunidade. Dana White repete a frase há duas décadas, e ela continua sendo o coração de tudo: ninguém os levava a sério, exceto Donald Trump. Convém registrar que parte do relato de White é lenda. A versão de que Trump assistiu a cada luta daquelas primeiras noites é contestada por ex-funcionários e nunca apareceu numa foto. Mas o essencial é verdade, e o essencial basta. Quando ninguém cedia o palco, ele cedeu.
E aqui está o ponto que a coluna quer fazer. O que Trump fez em Atlantic City não foi caridade nem visão de mercado refinada. Foi a aposta característica dele: entrar barato no ativo que a sociedade educada despreza e esperar. Foi assim com o pay-per-view de luta nos anos 1980, foi assim com o UFC, e foi assim, anos depois, com um eleitorado masculino jovem que a política tradicional tratava como ruído. Trump não comprou o UFC quando ele virou ouro. Comprou a relação quando ele ainda era lixo, e cobrou os dividendos pelos 25 anos seguintes.
Os dividendos vieram, e foram generosos para os dois lados. White discursou em duas convenções republicanas apresentando o amigo. Na eleição de 2024, abriu para Trump o ecossistema de podcasters e brigões digitais que orbita o esporte, com Joe Rogan na dianteira, e entregou exatamente o público que faltava. Na noite da vitória, foi ao lado de White, em Mar-a-Lago, que a comemoração ganhou as manchetes. Pouco depois, no Madison Square Garden, Trump entrou para o UFC 309 cercado de Elon Musk e de futuros ministros, e roubou a cena dos lutadores sem desferir um golpe. O octógono tinha virado palanque, e o palanque rendia voto.
Há uma simetria quase perfeita nisso, e é ela que torna a história tão americana. No começo, a influência era de mão única: o bilionário emprestava respeitabilidade a um esporte sem ela. Hoje é de mão dupla. O UFC, controlado pela TKO de Ari Emanuel, fechou contratos de transmissão que o jogaram para o centro do entretenimento, e White transita pelos círculos mais altos do poder corporativo como quem sempre esteve ali. O esporte que precisava de um cassino para existir agora tem um presidente de garoto-propaganda informal. E o presidente tem um esporte inteiro como base de afeto e de público.
Por isso o gramado da Casa Branca não é excentricidade. É contabilidade. O Freedom 250, anunciado como parte das celebrações dos 250 anos do país e remarcado para cair no aniversário de Trump, é o recibo de uma aposta feita quando ninguém apostava. Topuria contra Gaethje pelos leves, Pereira contra Gane pelo interino dos pesados, tudo isso é o cartaz. O texto verdadeiro está embaixo: um homem que entendeu, antes da maioria, que a respeitabilidade é uma moeda que se compra na baixa e se vende na alta.
Não é preciso gostar de Trump nem de luta para reconhecer a precisão do movimento. A maior parte das pessoas evita o que é malvisto justamente porque é malvisto. Ele fez o oposto a vida inteira, com método. O octógono no jardim presidencial é só a versão mais espetacular de uma lógica que ele aplica a quase tudo. Aposte no proibido. Espere. Cobre quando virar consenso. Vinte e cinco anos depois de Atlantic City, a conta foi paga em rede nacional, com cinturão em jogo e bolo de aniversário.
Por: Silvio Dória